poder
e política

5|jun|07:00

Anjos

edson vidigalpor EDSON VIDIGAL

Prefiro lembrar que há anjos bons e anjos maus. Havia uma brincadeira na infância em que a criança no começo de uma fila dizia como que batendo numa porta – tum, tum, tum…

A criança que fazia as vezes de porteiro indagava – quem é? A outra dizia – eu. Nova pergunta – eu quem? E o batedor então se identificava – anjo bom.

Para saber se quem batia àquela porta era mesmo um anjo bom e não um anjo mau era preciso uma revelação, uma espécie de senha. A pergunta que se seguia então era – o que trazes? A resposta – uma fita. Nova pergunta – que cor?

Se a cor era azul, nenhuma dúvida. O anjo que batia à porta era um anjo bom. Podia entrar na brincadeira e seguir confiadamente.

Hoje, entre nós aqui ainda meio crianças e meio adultos, a brincadeira não mudou muito.

Continuamos acreditando e admitindo no nosso mundo todos os que se dizem anjos do bem só porque ostentam a fita azul.

Nem atentamos para algumas advertências do Mestre como aquela – acautelai – vos dos falsos profetas, aqueles que se mostram em peles de cordeiros, mas que por dentro são lobos vorazes.

Realmente, não é tão fácil estarmos a salvo deles. Como na abordagem se mostram mansos, agradáveis, muitos até inspirando peninha, coitadinhos e a gente até se esbalda querendo ajudar. Com o passar do tempo, ledo engano. Cordeirinho de Deus ou Anjo do Bem que nada! Por dentro, no invisível, uns tremendos vigaristas.

Não vejo essas coisas como maldição. Enquanto não chegar o último minuto do último dia eles, os anjos do mal, lobos vorazes em peles de mansos cordeiros, continuarão no circuito até mesmo como forma justificadora da advertência do Mestre.

O que leva, por exemplo, uma pessoa a pregar ética, a se investir em defensora intransigente dos bons costumes, a estar sempre dedo em riste a apontar as mazelas dos outros, a clamar por vingança da sociedade contra os que a envergonham e, de repente, se ficar sabendo que aquelas teorias todas na prática não significavam mais do que a convocação daquele lema do cinismo – faça o que eu digo, mas não faça o que eu faço.

Conta-se que no começo do mundo todos os anjos eram bons. Depois, um deles chamado Lúcifer se acometeu de inveja quando o Criador lhe disse que a redenção do mundo não se encarnaria nele, mas no Cristo.

Houve um cisma e o Lúcifer ainda arrebanhou parte dos anjos com os quais montou o seu diretório com o qual vem seduzindo incautos, frustrando bons propósitos, disseminando maus exemplos, atrasando os avanços da humanidade, plantando maldades, enfim, infernizando futuros e a vida de muita gente.

Aqueles anjos decaídos da canção do nosso Baleiro, – Heavy Metal do Senhor / o cara mais underground que eu conheço é o diabo… – são os anjos maus popularmente conhecidos como demônios.

Os anjos bons são os que realizam a obra do Senhor. Os que praticam os preceitos que pregam e não habitam em si a contradição entre as aparências do bem e as eficácias do mal ao mesmo tempo.

Nossa luta de todo dia é para que a nossa carga de defeitos seja sempre mínima, imperceptível se possível perante as nossas boas ações.

Assistir a uma pessoa que até então nos convencia como anjo do bem, defensor intransigente da ética, combatente sem tréguas contra a impunidade, ver essa pessoa revelada em práticas completamente diferentes das coisas que nos fazia crer e até admirá-la porque notável dentre as raras minorias ainda respeitáveis, e depois, como agora, concluir que não era nada disso, meu Deus, por que nos impressionamos tão facilmente e baixamos a guarda e nos mantemos assim sempre tão descuidados?

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29|mai|09:05

Militâncias

edson vidigalpor EDSON VIDIGAL

O juiz apita decretando que o jogo acabou. Em êxtase, a torcida do time vencedor em êxtase cerra os punhos e como se quisesse atirar as mãos no ar, grita e comemora.

Cada um dessa torcida do time que venceu profere impropérios, diz o que lhe dá na telha, não lhe interessa o conteúdo do que diz. O que conta é a vitória final.

No gramado, as alegrias espocam incontidas, os onze vencedores dão a volta olímpica em torno do gramado, mas a Taça que simboliza a vitória é entregue a um jogador somente – o chamado Capitão do time.

Ninguém vai se lembrar do quanto custou para muitos, desde muito antes, aquele momento tão ansiado e de tantas alegrias. Ninguém depois vai querer contabilizar os custos.

Quantos nos treinos foram eliminados para que a seleção resultasse a melhor?

Quantos não tiveram que acorrer à diretoria para quitar dívidas atrasadas ou contraindo novas dívidas para que, chegando o dia decisivo, ninguém reclamando de nada, o ambiente fosse invadido pela confiança da coesão interna, todos na mesma disposição de luta querendo vencer?

E quantos, no anonimato das arquibancadas, sendo apenas torcedores, mas imprescindíveis à vitória porque time sem torcida ativa não joga quente para ganhar, quantos na torcida não foram xingados, e alguns até sofreram violência física por conta da paixão desmedida da torcida adversária?

Dos anônimos, importantíssimos para a vitória final, poucos se lembram.

Os registros vão dar conta de quem chutou em gol, e com o tempo ninguém se lembrará da habilidade de quem passou a bola apropriadamente para o colega chutar em gol.

As defesas do goleiro cairão no esquecimento. Dos que foram contundidos, vítimas do desespero adversário, ninguém vai querer se lembrar.

Os focos do reconhecimento, dos elogios, as celebrações da vitória, tudo se direcionará no primeiro momento para o capitão do time e secundariamente para os artilheiros daquela partida.

Passando hoje pela manhã numa praça da cidade onde agora estou, longe do Brasil, vi sobre um pequeno obelisco uma bola de futebol em tamanho natural, prateada.

Num primeiro momento imaginei que se tratasse de uma homenagem à seleção nacional que numa dessas rodadas quadrienais arrebatou para o seu País, há alguns anos, a Copa do Mundo.

Se fosse só por isso já seria interessante. Mas não.

Fui ler a placa e a placa dizia – homenagem às vítimas da violência no futebol.

Todos buscam a vitória e a celebram. Dos custos da vitória, poucos se lembram. Das vítimas que de alguma maneira restaram tombadas no campo da batalha, quase ninguém se lembra.

Como no futebol, nas guerras de todos os gêneros, assim também na política.

Alcançada a vitória de um partido em seus movimentos, todos se voltam tributando os méritos para quem encabeçou batalha, e em muitas vezes ele nem é o líder, é só um nome emprestado à simbologia ao momento.

Ninguém vai se lembrar de reconhecer os esforços, os sacrifícios, as renuncias, os desprendimentos, as violências sofridas de quantos, os que se tornaram conhecidos na linha de frente ou os anônimos das torcidas ativas.

Não há vitória sem custos e todos que participam da luta são pagantes, de alguma maneira pagam por antecipação ou algum dia depois, os custos.

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19|mai|18:25

A mim não enrolam

por Jorge Furtado*
Fico triste ao ver artistas brasileiros, meus colegas, tão mal informados.
Imagino que, com suas agendas cheias, não tenham muito tempo para procurar diferentes fontes para a mesma informação, tempo para ouvir e ler outras versões dos acontecimentos, isso antes de falar sobre eles em entrevistas, amplificando equívocos com leituras rasas e impressionistas das manchetes de telejornais e revistas ou, pior, reproduzindo comentários de colunistas que escrevem suas manchetes em caixa alta, seguidas de ponto de exclamação.
Fico triste ao ler artistas dizendo que não dá mais para viver no Brasil, como se as coisas estivessem piorando, e muito, para a maioria. Dizer que não dá mais para viver no Brasil logo agora, agora que milhões de pessoas conquistaram alguns direitos mínimos, emprego, casa própria, luz elétrica, acesso às universidades e até, muitas vezes, a um prato de comida, não fica bem na boca de um artista, menos ainda de um artista popular, artista que este mesmo povo ama e admira.
Em que as coisas estão piorando? E piorando para quem? Quem disse? Qual a fonte da sua informação?
Fico triste ao ouvir artistas que parecem sentir orgulho em dizer que odeiam política, que julgam as mudanças que aconteceram no Brasil nos últimos 12 anos insignificantes, ou ainda, ruins, acham que o país mudou sim, mas foi para pior.
Artistas dizendo que pioramos tanto que não há mais jeito da coisa “voltar ao ‘normal ‘”, como se normal talvez fosse ter os pobres desempregados ou abrindo portas pelo salário mínimo de 60 dólares, pobres longe dos aeroportos, das lojas de automóvel e das universidades, se “normal” fosse a casa grande e a senzala, ou a ditadura militar. Quando o Brasil foi normal? Quando o Brasil foi melhor? E melhor para quem?
A mim, não enrolam. Desde que eu nasci (1959) o Brasil não foi melhor do que é que hoje. Há quem fale muito bem dos anos 50, antes da inflação explodir com a construção de Brasília, antes que o golpe civil-militar, adiado em 1954 pelo revólver de Getúlio, se desse em 1964 e nos mergulhasse na mais longa ditadura militar das américas. Pode ser, mas nos anos 50 a população era muito menor, muito mais rural e a pobreza era extrema em muitos lugares. Vivia-se bem na zona sul carioca e nos jardins paulistas, gaúchos e mineiros. No sertão, nas favelas, nos cortiços, vivia-se muito mal.
A desigualdade social brasileira continua um escândalo, a violência é um terror diário, 50 mil mortos a tiros por ano, somos campeões mundiais de assassinatos, sendo a maioria de meninos negros das periferias, nossos hospitais e escolas públicos são para lá de carentes, o Brasil nos dá motivos diários de vergonha e tristeza, quem não sabe? Mas, estamos piorando? Tem certeza? Quem lhe disse? Qual sua fonte? E piorando para quem?”
Jorge Furtado é cineasta diretor do recém lançado ‘Mercado de Notícias’ e Urso de Prata em Berlim, em 1990, com ‘Ilha das Flores’

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14|mai|06:07

Campanha “SOS Barragem do Rio Pericumã”

cesar soarespor CÉSAR SOARES*
Em 02 de maio de 2014, participei de uma aprazível expedição pelas copiosas águas do Rio Pericumã, em companhia dos amigos Flávio Braga, Damasceno júnior, Maninho Braga, Hélton e Marcelo, este presidente da Câmara Municipal de Santa Helena.
Em 05 de maio de 2014, usei a rede social do facebook para denunciar e chamar a atenção das autoridades e da sociedade para o estado de precariedade em que se encontra a barragem do Rio Pericumã.
A estrutura da barragem vem sendo corroída pela oxidação ao longo do tempo, já que desde que foi inaugurada, em 1982, pelo Departamento Nacional de Obras de Saneamento (DNOCS), jamais recebeu qualquer reforma ou mesmo manutenção adequada. Possui 100 m de comprimento por 25m de largura. Ostenta três comportas, uma eclusa e dois diques laterais, fornecendo água e pescado para os municípios de Pinheiro, Palmeirândia, Peri-Mirim e Pedro do Rosário.
A obra foi projetada com o objetivo de represar a água doce do Rio Pericumã para, dessa forma, evitar a sua salinização por meio das massas líquidas do mar que avançam sobre o rio.
A barragem é muito importante para a nossa região, mas não tem sido tratada com a devida responsabilidade pelos agentes políticos. Os reparos técnicos indispensáveis ao seu funcionamento regular não podem ser descurados. A barragem do Pericumã necessita urgentemente de um serviço de recuperação, acompanhado de uma manutenção permanente, antes que seja tarde.
Por isso, estamos propondo a campanha “SOS Barragem do Pericumã”, cujo objetivo é sensibilizar as autoridades em relação ao descaso e ao impacto ambiental que sofrerão os campos da Baixada, caso a situação não seja encarada como uma questão de calamidade pública.
Com uma extensão de 115 km, o Pericumã é o mais importante rio da Baixada Maranhense. Nasce na Lagoa da Traíra (em Pedro do Rosário) e deságua na baía de Cumã, entre Guimarães e Alcântara. Em seu percurso, banha os campos de 13 municípios.
O Rio Pericumã é vital para Pinheiro, a maior e mais importante cidade da Baixada Maranhense, com mais de 80 mil habitantes. Em Pinheiro, mais de 90% do pescado consumido vem do rio Pericumã. Assim, é o caudaloso e piscoso Pericumã que abastece a cidade, além de ser utilizado para diversas atividades econômicas, como a pesca de subsistência e a agricultura familiar.
A administração da barragem é de responsabilidade do Departamento Nacional de Obras Contra a Seca (DNOCS), com sede em Fortaleza, mas não existe um funcionário sequer do órgão para realizar a manutenção básica da obra. A situação é tão delicada que os moradores das redondezas são os responsáveis por abrir e fechar as comportas da barragem.
Em 2009, a barragem de Algodões, no vizinho estado do Piauí, se rompeu causando uma tragédia que comoveu o país, ceifando vidas, destruindo lavouras e desabrigando centenas de famílias. O que ocorre em relação à barragem do Pericumã é algo semelhante, inclusive quanto ao aspecto de “tragédia anunciada”.
*César Soares – bancário, professor e atual vice-prefeito de Pinheiro-MA

 

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1|mai|06:03

Trabalhadoras

edson vidigalpor Edson Vidigal

Elas, as mulheres, todas trabalhadoras, ainda seguem com muito pouco. Não falo apenas quanto às oportunidades de emprego e renda. Quero dizer também quanto aos espaços na cidadania.

Já foi bem pior, sabemos. Ainda nos primórdios do ultimo século as mulheres sequer podiam ser votadas nas eleições para os cargos públicos. Nem mesmo podiam votar.

As leis que ainda são feitas pela maioria masculina não reconheciam às mulheres os direitos preferenciais inerentes à sua condição.

Lugar de mulher, dizia-se, era na cozinha. A cultura popular doutrinava num dos seus clássicos musicais – “Abdon que moda é essa, deixa a trempe e a colher / Abdon sai da cozinha que é lugar só de mulher…” Hoje em dia, nem tanto assim.

A violência doméstica ainda corre solta, acobertada pelo brocardo – em briga de marido e mulher ninguém mete a colher. Isso quer dizer que se a vizinha é surrada pelo marido, ninguém tem nada a ver. Temos todos a ver, sim.

Para conter a violência doméstica já temos a Lei Maria da Penha. Sabe você quem é essa mulher? O marido, um sujeito grosseiro, no meio de uma briga doméstica, sacou um revólver e a bala alcançando a coluna vertebral a deixou paralitica.

Pois essa mulher, imobilizada como ainda hoje numa cadeira de rodas, humilhada ante a omissão das leis que não prescreviam nada quanto à violência doméstica, desfraldou sua bandeira de luta. A lei pela qual tanto lutou é conhecida pelo nome de Maria da Penha.

Mas esse é apenas um marco da luta das mulheres pela igualdade de direitos e de oportunidades de trabalho e renda. Um dado positivo. Entre as 100 empresas mais bem sucedidas no mundo, as 10 maiores são, ou foram, presididas por mulheres.

Entre nós, dentre as muitas proteções legais que ainda faltam em favor das mulheres, em especial, não temos leis contra o assedio moral, por exemplo.

Milhares de mulheres chegam em casa deprimidas ou até mesmo perdem o emprego por não resistirem aos maus tratos, às grosserias, à falta de respeito, aos palavrões e xingamentos com que são tratadas no trabalho por superiores hierárquicos.

 

Os chefes que se notabilizam por suas grosserias não são apenas os homens. Na maioria dos casos, o assedio moral parte de chefes mulheres.

Na hierarquia dos salários, as mulheres, mesmo as mais qualificadas profissionalmente, ainda seguem ganhando menos que os homens. A isonomia salarial nas empresas é um direito que ainda não lhes alcança.

Na politica, a lei obriga os partidos a destinarem 30% das chapas proporcionais para as candidaturas das mulheres. Não obstante, elas somam apenas 12% nas Câmaras Municipais e 10% nas Assembleias Legislativas.

A presença feminina no Senado da Republica é de apenas 10 representantes num total de 81 cadeiras, ou seja, 10%. Na Câmara dos Deputados, elas são apenas 46 num total de 513, ou seja, 8%.

Menos de 10% dos Municípios do Brasil tem mulheres na titularidade dos Executivos. Nos Estados, apenas duas Governadoras. Felizmente, apenas uma delas dá motivos a tantos vexames.

Uma vergonha! Entre 188 países pesquisados, o Brasil está na 156ª posição em participação feminina nos cargos de direção politica.

Vamos falar sempre e bem alto, do fundo do coração – Primeiro, as mulheres! Viva as mulheres, trabalhadoras do Maranhão e do Brasil!

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27|abr|18:19

As perguntas que não são feitas nas pesquisas eleitorais

por Wanderley Guilherme dos Santos

Pesquisas de opinião são orientadas, claro, e as eleitorais não constituem exceção. Se alguém deseja saber quem prefere maçã ou banana deve perguntar justamente isso, sem confundir o pesquisado com as opções de abacaxis e mangas. Muitas pesquisas eleitorais desorientam os entrevistados ao introduzir opções que nada mais são do que abacaxis e mangas, nomes de candidatos sabidamente estéreis no contexto eleitoral efetivo. Obtêm-se antes de tudo uma idéia da dispersão aleatória da preferência eleitoral, não as escolhas sólidas a aparecer com perguntas focadas no que está, de fato, em jogo.  Mas nada impede que se investigue se o freguês é mais afeito a frutas ácidas ou cremosas – um tanto mais geral e inespecífica do que a pergunta anterior.

Com maior ou menor generalidade o que importa é que há um mundo de interrogações adequadas ao conjunto das frutas, todas legítimas, respeitadas modestas regras de lógica. Simples, mas esquecido quando os institutos divulgam seus resultados, aceitos com sagrada intimidação. Na verdade, os mesmos tópicos das pesquisas podem ser investigados por inquéritos variados, nada havendo de interdito no terreno do mexerico.

Em pesquisas de opinião são fundamentais a representatividade da amostra dos pesquisados, a correção dos questionários e, concluindo, a leitura dos resultados. É intuitivo que em uma comunidade onde 99% são religiosos o inquérito não pode concentrar-se no 1% restante, exceto se o pesquisador estiver interessado justamente na opinião da extrema minoria de agnósticos que ali vivem. Isto respeitado, tudo bem quanto à representatividade dos números.

Mas a leitura dos resultados pode ser marota. Jogando uma moeda para o ar centenas de vezes, o número de experimentos em que ao cair a moeda mostrará a “cara” tende a ser o mesmo número de “coroas”. Ignorando quando e porque acontece uma ou outra coisa, deduz-se que a probabilidade de dar “cara” ou “coroa” é de 50%, ou seja, metade das vezes uma, metade, a outra. Em certos convescotes essa peculiaridade é chamada de “acaso”.

Mas essa é uma probabilidade diferente da que indica o futuro do clima, por exemplo. As chances de que chova nas próximas 48 horas não é derivada diretamente de uma série de 48 horas do passado, mas das condições em que milhares de 48 horas foram chuvosas: umidade do ar, regime de ventos, formação de nuvens, etc. explicam com relativo grau de precisão (a probabilidade) as variações climáticas. O que justifica o probabilismo é o conhecimento das particularidades associadas ao aparecimento do fenômeno “chuva”, não o mero fato de sua repetição.

Pois a probabilidade derivada de uma série de pesquisas eleitorais é análoga à do jogo “cara” ou “coroa”, não à dos prognósticos atmosféricos. De onde se segue serem um tanto marotas as previsões de resultados eleitorais apoiadas em séries históricas, por mais extensas que sejam. A diferença é ontológica: uma eleição não é um jogo de “cara” ou “coroa”. A seguir, uma crítica, digamos, construtiva.

Rompendo o tédio da rotina dos questionários elaborados pelos institutos de pesquisa, formulei seis perguntas cujos resultados me interessariam conhecer. Aí vão:

1 – o Sr(a) prefere:

a) continuar com a presidenta atual (Dilma Roussef)

b) voltar ao governo do PSDB (Aécio Neves)

c) indiferente

 

2 – o Sr(a) votaria em alguém que:

a) defende a manutenção do emprego de quem trabalha

b) promete medidas impopulares

c) indiferente

 

3) – o Sr(a) apóia o controle nacional do petróleo do pré-sal?

a) sim

b) não

c) indiferente

 

4) – A oposição atual representa seu ideal de governo?

a) sim

b) não

c) indiferente

 

5) Em relação à distribuição de renda o Sr.(a) é:

a) a favor

b) contra

c) indiferente

 

6) Os atrasos na conclusão de aeroportos e estádios demonstram que:

a) a iniciativa privada não é confiável

b) há sempre imprevistos em grandes obras

c) indiferente

Escolhi agregar todos os votos “não sei/prefiro não responder”, brancos e nulos em uma única opção porque estou interessado somente nas escolhas claras. E indiquei o nome de dois candidatos na pergunta 1 porque este é o desenho do questionário e, conforme o manual da boa pesquisa, o entrevistado deve estar de posse das informações relevantes para responder corretamente. Naturalmente, os entrevistados com preferência por outros nomes ou por nenhum estariam representados na resposta c.

O diabo é que ninguém acredita que os questionários dos institutos são apenas uma aproximação do que os eleitores perguntam a si mesmos, na hora do vamos ver. Por isso suas pesquisas ao final de uma corrida eleitoral se tornam mais diretas e econômicas, reduzindo o percentual de erro. Ainda assim, por vezes o palpite estatístico é desastrosamente equivocado. É quando o instituto, ao contrário de tentar replicar o que pensa o eleitor, busca fazer com que o eleitor pense como ele. Não dá certo

Texto publicado originariamente no site da Carta Maior

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